quarta-feira, julho 09, 2008

Fronteiras em Geologia: Mineralogia e Geoquímica na Medicina.


Sendo a Geologia uma disciplina científica cujas origens são muito antigas, não é de estranhar a elevada homogeneidade dos programas das várias licenciaturas existentes por todo o mundo. De facto, se perguntarmos a qualquer estudante de licenciatura quais são para ele os principais ramos da Geologia, a resposta será bastante parecida, independentemente da universidade onde estude. Nomes como Paleontologia, Estratigrafia, Mineralogia, Petrologia ou Geologia Estrutural despertam o nosso peculiar sentido de compartimentação do conhecimento, e a transmissão de saber nestas áreas constitui o fundamento da manutenção daquilo que podemos designar como a "identidade científica" da Geologia. No entanto, esta tradição não representa o limite das possibilidades de investigação de uma pessoa com semelhante formação científica. Longe disso. Para lá do (para mim, excessivo e perigoso) culto à tão propalada actividade inter-disciplinar, os geólogos têm coisas importantes a dizer no âmbito de assuntos tão díspares como realogia dos materiais sólidos, prevenção e remediação ambientais, ciências agrícolas, astronomia, ou a medicina.

A edição de Dezembro de 2007 da revista Elements (publicação mensal que versa sobre temas de Mineralogia, Geoquímica e Petrologia) foi dedicada na sua totalidade a artigos relacionados com a Geoquímica e Mineralogia em Medicina. Os assuntos abordados, como se pode ler na capa, não soam estranhos ao ouvido geológico mais tradicional: mineralização de ossos e dentes, interacções entre proteínas e superfícies de minerais dos solos, potencial tóxico de pós de minerais, pedras dos rins, são alguns exemplos.

De entre os vários excelentes artigos incluídos nesta edição, há um que considero particularmente interessante, de Jeffrey Wesson e Michael Ward, cujo título é (traduzido para Português) "Biomineralização patológica de pedras dos rins". Neste estudo, os autores procuram as razões pelas quais o oxalato de cálcio monohidratado (COM) forma agregados e, portanto, origina patologias renais, e o dihidratado (COD) permanece em cristais soltos no seio da urina. Grande parte dos conceitos científicos manipulados para levar a investigação a bom porto são do foro da Mineralogia, Cristalografia e Geoquímica.

Esquerda (COM) http://images.google.com/imgres?imgurl=http://scienceroll.files.wordpress.com/2007/09/calciumoxalatemonohydrate.jpg&imgrefurl=http://scienceroll.com/2007/09/05/kidney-stones-and-photography/&h=300&w=400&sz=17&hl=pt-PT&start=7&um=1&tbnid=kxvmD-izmM8EaM:&tbnh=93&tbnw=124&prev=/images%3Fq%3Dcalcium%2Boxalate%2Bmonohydrate%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26lr%3D%26sa%3DG

Direita (COD) http://diaglab.vet.cornell.edu/clinpath/modules/ua-sed/images/ox-di.jpg


Já agora, parece que a resposta ao problema reside na maior força de adesão entre as moléculas orgânicas da urina e a principal face do COM. Essas moléculas orgânicas com cadeias laterais iónicas promovem por sua vez a adesão mais forte entre os cristais de COM entre si, formando agregados estáveis, que podem obstruir os canais dos rins gerando patologias. A adesão das moléculas orgânicas sobre a face mais importante do COD, pelo contrário, é muito mais fraca, de forma que os agregados deste cristal são muito instáveis e raros. Assim, o carácter "benigno" e "maligno" de cada um dos minerais é controlado pelas incidências cristalográficas deste processo de interacção. O desenvolvimento de técnicas de cura e prevenção destas doenças passa pela obtenção deste tipo de dados.







3 comentários:

Anónimo disse...

Excelente post!

Já agora,porque considera excessiva e perigosa actividade inter-disciplinar?

M. Vargas

Luís Verão disse...

Não é a actividade inter-disciplinar que considero "excessiva" e "perigosa". É a excessiva a importância que se lhe dá.

É um termo reduntante, uma vez que toda a Ciência é inter-disciplinar por definição. Se não o é, não se trata de Ciência. Temo que seja um termo demasiado vago, utilizado sobretudo em discussões políticas, ou em descrições de projectos, no momento de pedir financiamentos.

André Pinto disse...

Peço desculpa. O comentário acima reproduzido é da minha autoria.

(Resta-me acrescentar que tive conhecimento de um projecto que recebeu muito dinheiro de um organismo estatal (não foi em Portual) porque, entre outros "rebuçadinhos", se dava grande importância ao facto de ser inter-disciplinar. As pessoas da comissão de avaliação ficaram tão deslumbradas com a "inter-disciplinariedade" que nem se deram ao trabalho de ver o peso relativo das colaborações na execução geral do projecto. O trabalho era quase todo na mesma área, sendo as colaborações extremamente pontuais e, na maior parte dos casos, ninharias que um investigador da área central do projecto poderia fazer ele mesmo com uma semana de treino.)