Eu e o Forum Português Pós-Quioto
Na passada quarta feira decorreu na Gulbenkian a conferência inaugural do Fórum Português Pós-Quioto. Apesar do atraso com que chega este post, o repórter estava lá e vai tentar agora sintetizar as suas impressões acerca palestras a que assistiu entre duas sempre divertidas consultas médicas.
Depois das apresentações e inevitáveis discursos dos representantes do governo (neste caso o Secretário de Estado do Ambiente Humberto Rosa, que saiu logo após da sua intervenção), Pedro Martins Barata, da Euronatura fez uma revisão da situação nacional em relação ao compromisso assumido por Portugal no âmbito do Protocolo de Quioto.
Portugal, ao contrário da maioria dos países da UE, podia aumentar as suas emissões de CO2 em 27% em relação aos níveis de 1990, mas essa cota já foi largamente ultrapassada e para cumprir o protocolo vamos ter de recorrer aos mecanismos de flexibilidade incluídos no mesmo (compra de créditos de carbono, etc). Esperemos que sejam tomadas (e não só anunciadas) medidas concretas e eficazes para a redução de emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE) para além de coisas pouco convincentes e com efeitos reduzidos no total de emissões geradas como a diminuição do limite máximo de velocidade para
Depois falou Wolfgang Cramer do Potsdam Institute on Climate Change sobre alterações climáticas perigosas e como evitá-las. Este tipo de alterações foram definidas pela sua equipa como correspondendo a uma subida da temperatura média superior a cerca de

Para evitar tudo isto é necessário estabilizar os níveis de CO2 na atmosfera entre os 450 e os 500 ppm o que envolve convencer os EUA (o maior emissor e de longe o maior emissor per capita) a China e a Índia (dentro de alguns anos os maiores emissores de CO2 mas com uma taxa per capita muito inferior aos EUA) a reduzir as suas emissões e, segundo este investigador, eliminar quase por completo a deflorestação descontrolada em todo o mundo visto que esta é responsável por aproximadamente 25% das emissões antropogénicas de CO2. Estas medidas de mitigação devem tomadas brevemente, como pico de emissões a situar-se algures entre 2015 e 2020 e ser acompanhadas por outras de adaptação ao aumento da temperatura resultante do aumento das concentrações de GEE até essa data.

As últimas duas intervenções a que assisti deram mais enfâse ao lado económico da coisa, com Jake Schmidt do Center for Clean Air Policy a salientar a importância do envolvimento da China, Índia, Brasil e outros países em rápido crescimento num acordo Pós-Quioto incentivando-os com projectos que permitam vantagens essencialmente domésticas (diminuição da dependência energética do estrangeiro, aumento da qualidade do ar, etc) e dando incentivos para a redução voluntária das emissões nos países em vias de desenvolvimento que seriam recompensados no caso de as conseguirem sem estarem sujeitos a sanções caso não conseguissem essa redução. O envolvimento dos EUA seria também essencial, e segundo Schmidt, se isso não acontecer este ano, só lá para 2009, com uma nova administração em funções, é que a conjuntura vai ser de novo favorável à adopção deste tipo de medidas por parte do governo americano.Hubbert Kieken, do IDDRI, fez uma apresentação onde mostrou através de modelos macroeconómicos que a adopção de medidas mais rigorosas de redução de emissões de GEE não vão provocar uma hecatombe na economia mundial ao contrário do que algumas correntes político-económicas têm levado a crer apesar de nunca fundamentarem correctamente essa previsão.
Tudo isto se passou na semana em que foi divulgado o Summary for Policy Makers do IPCC e em que na Science saiu um artigo que confirma a concordância dos modelos usados por este painel nos seus relatórios e os dados observacionais, sendo que estes, no caso do aumento do nível médio das águas do mar, se situam no limite máximo das previsões de 2001, levando a que alguns investigadores critiquem este novo relatório por ser demasiado conservador.
Com as incertezas a desaparecer as medidas para diminuir as emissões de GEE tornam-se cada vez mais urgentes mas isso não impede que tanto governos como empresas tentem desesperadamente encobrir ou lançar a dúvida sobre as alterações climáticas para assim não comprometerem os seus interesses.

Cada dia que passa a ameaça cresce lentamente e é precisamente essa lentidão que torna a urgência da aplicação das medidas de mitigação tão difícil de popularizar e o hipotético impacto económico negativo das mesmas tão fácil de difundir. É urgente passar à acção concertada a nível global com medidas concretas e o apoio da sociedade civil que parece cada vez mais predisposta a aceitar estas medidas, pelo menos nos países ocidentais. O maior problema pode vir da China, onde procura energética cresce a um nível impressionante aliada às enormes reservas internas de carvão e não existe uma opinião publica suficientemente forte para pressionar o seu estado não democrático que só vai aceitar diminuir as suas emissões se isso lhe for de alguma maneira vantajoso.

2007 pode ser um ano de viragem e marcar um verdadeiro princípio de uma politica mundial de combate ás alterações climáticas, se a deixar-mos passar corremos o risco de só nos apercebermos dos nossos erros quando for tarde demais.
PS: Posto isto, alguém que ganhar milhões a inventar maneiras eficazes de sequestrar CO2 ?













