quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Pulsares

No passado fim-de-semana vi um programa acerca de “Pulsares” e fiquei fascinado. Estes objectos são espectaculares e desafiam a imaginação de qualquer curioso. Os pulsares foram descobertos acidentalmente em 1967 por Joselyn Bell, durante os seus trabalhos de doutoramento sobre o meio interestelar. Joselyn identificou sinais de rádio emitidos em pulsos extremamente regulares, como se originados por um relógio. O sinal repetia-se em cada 1.3 segundos. A primeira hipótese para explicação deste estranho fenómeno foi que existia problemas nos instrumentos, e a segunda foi que estes sinais estariam a ser emitidos por civilizações extraterrestres.

Após estas hipótese terem sido descartadas, percebeu-se que estes sinais provinham de objectos estelares bastante pequenos, menores que a distância entre a Terra e a Lua, e que a regularidade dos pulsos só poderia ter origem na vibração ou rotação destes objectos. No ano seguinte foi descoberto um segundo pulsar, na nebulosa de Caranguejo, com um período de somente 33 milésimos de segundo. Isto indicava a rotação de um objecto de menos de 150 quilómetros de diâmetro (o Sol tem 1.400.000 quilómetros de diâmetro). Como poderia um objecto tão pequeno ser observado a tal distância? Fowler em 1926 sugeriu a possível existência de estrelas super densas, e Landau em 1932 sugeriu um modelo de como poderia ser a sua estrutura; Zwicky em 1934 previu que, ao explodir uma super nova, o núcleo da estrela poderia comprimir-se e formar uma estrela deste tipo. Em 1939, Robert Oppenheimer, calculou em detalhe a estrutura de estrelas super densas “hipotéticas”, formadas por neutrões praticamente em contacto. Desde há 25 anos sabe-se que os pulsares são de facto estrelas de neutrões e que giram muito rapidamente sobre o seu eixo. Os modelos de numéricos demonstram que estes têm uma massa 40% superior à do Sol contida num diâmetro de apenas 20 quilómetros. Isto significa que um cubo de um centímetro de lado desta matéria pesa 100 milhões de toneladas. As estrelas de neutrões estão no limite da densidade que pode ter a matéria: o passo seguinte é um buraco negro.

Desde o descoberta do primeiro pulsar foram identificados cerca de 600 destes objectos. Os pulsares são laboratórios astrofísicos inigualáveis já que:

  • A sua densidade é comparável à do núcleo dos átomos, irreproduzível na Terra. A sua densidade origina campos gravíticos superados apenas pelos buracos negros, porém mais fáceis de serem medidos.
  • O mais rápido dos pulsares dá 600 voltas sobre seu eixo num segundo. Por tanto, sua superfície roda a 36.000 quilómetros por segundo!
  • As estrelas de neutrões têm os campos magnéticos mais intensos que se conhecem no Universo, milhões de vezes mais fortes que os produzidos em qualquer laboratório terrestre.
  • Nalguns casos a regularidade das suas pulsações é igual ou superior à precisão dos relógios atómicos - os melhores que temos na Terra. Existem propostas para empregar alguns pulsares como padrões para medição de tempo.

É incrível pensar como um objecto com uma dimensão superior à da Terra pode rodar várias centenas de vezes por segundo.

Texto adaptado de Carlos Bertulani.

1 comentário:

JMD disse...

Acabo de ler o texto sobre "Pulsares" e também eu fiquei fascinado. Apetece-me fazer um comentário óbvio: Perante tais realidades, qual a verdadeira dimensão dos nossos probleminhos?
Sim, há que relativizar..
Continuação de bom trabalho, pela divulgaçao científica!